Arrepender-se do que se faz é algo que acontece por você ter consciência. Realmente espero que a Ivy tenha se arrependido por ter sido tão rude comigo naquele dia. Entendo os motivos dela, sempre entendi. Mas amigos devem estar ao lado um do outro, não importa o que aconteça. Ela não queria ser mais minha amiga, eu sei disso agora. Ela se cansou de mim, então tudo bem. Se é isso mesmo, vou deixar tudo para trás. Vou continuar a viver a vida normalmente e deixar a Ivy para trás, esquecer. Queria poder dizer isso e saber que é verdade, mas não é. É impossível. Eu… eu amo a Ivy. Ela sempre foi a minha melhor amiga, a única que realmente me conhece. O que eu tinha com ela, nunca vou ter com ninguém mais. Não menti quando disse que sentia saudades, por que mentiria? Eu estou cansada de mentir, de continuar vivendo duas vidas. Por um mísero segundo eu poderia ter pensado que, agora com a Ivy no meu quarto, eu poderia ter mais tempo para ser eu mesma, mas isso não é verdade. Eu vou ter que fingir com ela, também. Nada é como era e nunca mais vai ser - eu tenho que me contentar de pelo menos ter a desculpa de poder sorrir para ela nos corredores, fingindo ser só por educação, mas por dentro desejando que o sorriso virasse uma conversa que durasse a noite inteira como acontecia antes. Só nós duas. Mas novamente, isso não vai acontecer. Não é esse tipo de “colegas de quarto” que ela quer ser.
Respirei fundo e abri a porta do quarto, deixando as malas e a caixa na cama vazia. Virei para sair, mas ela já tinha fechado a porta. Não queria ter que passar por ela e sentir aquele cheiro de novo. Doeria demais. Fiquei parada, de pé, como um coqueiro, de braços cruzados, assistindo enquanto ela tirava as roupas da mala e colocava no guarda-roupas. Se eu estivesse tentando ver através dos atos dela, diria que está irritada com alguma coisa, pelo modo como joga tudo dentro do armário. Mas eu não estou porque eu não me importo mais com ela.
Ivy jogou a mala na cama. Eu pude ouvir o som do atrito dela contra o chão antes da loira sentar na cama, uns três passos de distância de mim. Cobriu o rosto e disse o meu nome. Engoli seco. Não pelo tom da voz dela, mas por ela ter me encarado. Falou que sentia minha falta, mas não parecia ser verdade. Voltou a se levantar e foi arrumar as coisas na caixa que eu havia trazido. Bom, se ela quer uma colega de quarto, ela vai ter uma.- Pode tomar um pouco do meu espaço, se quiser. - Descruzei os braços e coloquei as mãos nos bolsos do short. Olhei para a janela e respirei fundo. - Eu preciso, uhm… - Apontei para o lado de fora, sem conseguir pensar numa desculpa. Não quero mais ter que ficar aqui. Dói demais. O passado, as lembranças, não poder ter tudo de volta; não poder ter a minha amiga de volta.
Deixei a frase inacabada e me apressei para a porta. - Bem-vinda ao quarto quinze. - Disse com o meu melhor sorriso simpático, antes de sair e fechar a porta atrás de mim. Não sabia para onde ir, só não consigo ficar ali, respirando o mesmo ar que ela e pensando no seu cabelo com cheiro de sorvete.
Eu acho que estava mais é socando as roupas pra dentro daquele armário, além de dar alguns socos mesmo, só pra todas caberem lá. - Pode tomar um pouco do meu espaço, se quiser. - Foi tudo o que ela disse. - Não… Obrigada. - Fiz força pra sorrir, acho que pela primeira vez na vida.
Ok, eu mereço isso. Eu só queria que ela se sentisse bem em ser apenas a Lilah, uma Lilah que pudesse pintar o cabelo da cor que quisesse, sabe? Sem se importar com o que os outros vão achar. E sem essa coisa que aquele mauricinho idiota colocou na cabeça dela, de ser popular sempre e ser do jeito que todos querem que você seja.
Cada um é do seu próprio jeito, ninguém pode ser igual, ninguém agrada todo mundo. É com isso que a Lilah precisa se acostumar, e mesmo ela sendo a garota mais perfeita, aposto que tem gente que ainda não gosta dela. Eu não gosto dessa Lilah que todos conhecem, eu gosto da minha Lilah, que é melhor.
Eu estava de muito mal-humor, talvez porque eu quisesse que tudo voltasse a ser como antes, bem antes, quando a doença chamada “popularidade” ainda não tinha chegado na Lilah. Não consegui conviver com uma Lilah e outra… Não sei, Perfeita, esse deveria ser o nome; porque parecia que ela tinha vergonha dela mesma. Se ela estivesse no meu lugar, entenderia tudo, entenderia porquê eu fiz aquilo.
Eu já estava ficando louca, louca por não saber qual era a Lilah minha amiga, e qual era a que poderia qualquer dia começar a me ignorar por eu não ser do jeito que a sociedade deseja. Por que os desejos dos outros são mais importantes que os dela? É a coisa mais errada que existe.
- Eu preciso, uhm… - Voltei a olhar pra ela e acidentalmente, uma pilha de roupas caiu no chão. Que ótimo. - Claro, não me importo. - Certo, isso saiu muito sem querer, por que me importaria? Foi uma coisa desnecessária de se dizer, e coisa que eu falaria antigamente, nas pequenas brigas. Comecei a juntar as roupas do chão e coloca-las de volta no armário.
Logo Lilah estava na porta. - Bem-vinda ao quarto quinze. - Ela deu um daqueles sorrisos de boneca e saiu. O barulho da porta se fechando foi doloroso. No pouco tempo que passamos juntas hoje, eu me senti muito mal, e tinha esperado me sentir bem.
Assim que ela saiu, me deitei no chão e mordi meu braço com força, pra não gritar de frustação. - Por que, Rat? Por quê? - Comecei a soluçar, com Rat tentando a todo custo chegar perto o suficiente do meu rosto para lamber as minhas lágrimas. Levantei e comecei a socar um dos travesseiros, dessa vez com força, imaginando que era a pessoa que começou tudo aquilo: Ryan.
Eu acho que estava mais é socando as roupas pra dentro daquele armário, além de dar alguns socos mesmo, só pra todas...
Arrepender-se do que se faz é algo que acontece por você ter consciência. Realmente espero que a Ivy tenha se...